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Masp tem ‘barriguinha’ na laje; veja curiosidades sobre a estrutura do Museu de Arte de São Paulo, que vai passar pela 1ª restauração


g1 ouviu arquitetos para entender como funciona a estrutura do museu. Local passará por restauração e as obras devem começar na segunda (22). Combinação de fotos mostra o Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, em 1980 e em 2021
Sidney Corrallo/Estadão Conteúdo; Marcelo Brandt/g1
O Museu de Artes de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, vai passar pela sua primeira restauração em quase 60 anos de construção a partir de segunda-feira (22).
A partir do questionamento de um leitor, que disse ter enxergado uma curvatura no vão livre, como se fosse uma “barriguinha” no Masp, o g1 foi atrás de detalhes sobre o projeto desse monumento da arquitetura brasileira.
Em setembro de 2023, após ser questionado pelo g1, o Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizou uma vistoria no edifício e constatou que o museu tem mesmo uma deformação de 70 centímetros, mas que não representa nenhum risco para a estrutura.
Essa deformação existe desde a construção do prédio, é monitorada e causa a impressão de que o Masp tem uma “barriguinha” na laje do vão.
A restauração do local não vai interferir na “barriguinha”. O projeto prevê a restauração e a repintura dos pilares e vigas externas. Além disso, também foi atestado que a laje de cobertura e o vão livre tem desgastes causados pelo tempo.
Concreto
O museu, inaugurado em 1968, foi projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, que usou uma técnica inovadora para sustentar o vão livre de 74 metros quadrados.
O Masp é feito de:
Concreto no formato de pés de pato
Colunas de concreto armado
Vigas alongadas
Esse concreto em formato de pés de pato é chamado de sapatas, que estão enterradas no piso e foram construídas com concreto armado e tela dupla de aço estrutural. Para quem olha o museu da Avenida Paulista, essas sapatas estão sobre os túneis da Avenida Nove de Julho.
As colunas de concreto armado foram colocadas em cima das sapatas. As colunas do lado direito do museu, para quem olha a partir da Avenida Paulista, são ocas, vazias no interior, onde foram colocados pêndulos de concreto armado nas extremidades superior e inferior, permitindo movimentos horizontais das vigas de cobertura.
Circo Piolin no Belvedere do Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1972
Luiz Hossaka/Acervo do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi/Casa de Vidro
Para segurar a estrutura elevada, foram utilizadas vigas protendidas, ou seja, vigas que permitem um alongamento. Ao todo, são 4 vigas, um par que sustenta a cobertura e mais duas que atravessa o interior do edifício para sustentar dois pisos simultaneamente. Essas vigas são formadas por tubos ocos de seção retangular, a cada 3,5 metros de concreto com divisões nos blocos.
As vigas que sustentam o andar superior, do acervo permanente, possuem a mesma largura do corredor entre as salas e o espaço de exposições temporárias.
As vigas protendidas, tanto no vão entre elas como nos balanços, as lajes são apoiadas em vigas em concreto armado
As vigas da cobertura, em um dos lados, são simplesmente apoiadas, com vão livre de 74 metros.
Com isso, é permitido um movimento horizontal da estrutura do lado em que os pilares são ocos. Esses movimentos são liberados por um pêndulo de quatro metros de altura.
Segundo arquitetos ouvidos pelo g1, a movimentação dá uma impressão de que a estrutura do local está curvando.
“A movimentação da estrutura é normal. Para vencer o vão – que na época era um desafio da engenharia – a Lina criou aquela estrutura vermelha e literalmente pendurou o Masp. Com o tempo, esses cabos e o peso vai esticando, muito devagar, mas é completamente normal”, afirma o arquiteto Lula Gouveia.
Segundo Lula, a estrutura que sustenta a galeria de vidro do Masp é como se fosse um parafuso. “Você pode esticar novamente e ele volta ao estado normal, algo que já acontece há muitos anos, então vai chegando em um limite. Mas o fato é que a Lina não só usou uma técnica nova como previu que no futuro a manutenção fosse fácil e segura”.
Em como grande parte das suas obras, Lina imaginou um local que deveria ser utilizado pelo público e o vão livre responde essa ideia. Já que é permanentemente aberto ao público, além de ter virado um local de ponto de encontro dos moradores de São Paulo.
Segundo Alexandre Benoit, arquiteto e professor da Escola da Cidade, uma das lajes do Masp é sustentada por uma viga invertida e a outra é por tirantes de aço, que seguram a laje.
“A sala de exposição permanente é sustentada por uma dupla de vigas, que atravessam e chegam nos pilares. A laje debaixo, aquela que você vê de fora antes do vão, é puxada por esses tirantes. Quando você entra no primeiro andar do Masp, você consegue ver os tirantes de algumas partes da área”, afirma.
O museu foi feito para aguentar o peso de existir em um vão tão extenso e, por conta disso, ele se movimenta lentamente de acordo com fatores como:
Época do ano
Umidade relativa do ar
Ventania
Essa movimentação também é monitorada pela administração do local – através da observação da variação, ou seja, se está crescente ou não. A cada mês, são levantadas as medidas do piso ao teto em seis pontos do edifício. Com os dados, é elaborado um diagnóstico semestral. Atualmente, a obra apresenta uma variação de curvatura média de 2mm.
Museu barrigudo
A “barriguinha” do Masp, criada pela deformação, foi causada pela própria técnica de concreto armado protendido. Ele não está caindo.
As vigas do Masp (veja acima), sofreram um processo de protensão, uma técnica utilizada para aumentar a resistência do concreto, em 10 mil toneladas de força, considerando os 70 metros de vão.
Para atingir a compreensão estipulada para cada viga, era necessário injetar nata de cimento na estrutura que envolvia os cabos. Essa técnica, causou um encurtamento de 5 centímetros em cada viga.
A protensão do Masp foi feita de uma maneira diferente do usual.
Eles utilizaram uma técnica criada pelo engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, que também assina o projeto. Nesse sistema, antes de ingerir nata de cimento nas vigas, é possível que sejam feitas novas tensões nos cabos em um determinado intervalo de tempo, para compensar as perdas de resistência por retração e deformação lenta do concreto, voltando-se a comprimir as vigas para a manutenção da tensão desejada.
“Essa barriga a gente vê conforme o ângulo, igual aquela história de estádio de futebol tremer. Em termos mais técnicos, se trata de uma flexão natural do concreto após a deformagem”, diz Benoit
Lina Bo Bardi, responsável pelo projeto arquitetônico do Masp, posa na construção
Acervo/Masp
Como foi pedido o projeto do Masp?
No local onde atualmente fica o Masp, antes da construção, existia o Belvedere Trianon – um espaço destinado para festas e bailes e que tinha uma enorme cobertura com vista para a Avenida Nove de Julho e o Centro da cidade.
O Belvedere Trianon, foi demolido para levantar um pavilhão que sediaria a 1ª Bienal de Arte de São Paulo. O terreno onde ficava esse espaço teria sido doado para a prefeitura da capital. Inicialmente, sustentava-se a tese de o doador do terreno exigiu que qualquer construção que fosse levantada no local, precisaria ter vista para o Centro da cidade.
Antes de ter sede na Avenida Paulista, o Masp ficava na Rua 7 de Abril, no Centro da cidade.
A arquiteta Lina Bo Bardi, que chegou ao Brasil em 1946, se interessou pela nova sede e, entregou um projeto para o administrador do museu na época, já mantendo a exigência de deixar o Masp com uma vista para o Centro. Durante muito tempo o vão livre do Masp foi o maior do mundo.
A exigência da vista para o Centro, pode ter sido inventada para aprovar o vão. A tese é do historiador italiano e especialista em arquitetura brasileira Daniele Pisani, que em 2019, publicou um livro alegando que a exigência teria sido inventada por Lina e Pietro Maria Bardi (marido de Lina).
“Era uma obra cara e arrojada e precisaria de uma justificativa para o enorme vão. Nos estudos recentes, o Pisani relativizou essa teoria e argumenta que talvez essa história pode ter sido inventada pelo Bardi e pela Lina para justificar a existência do vão, já que de uma forma ou de outra deixou a vista desimpedida para o Centro”, afirma Benoit.
“Existia essa condicionante, mas ela dava margem para ser questionada. De qualquer forma, independente se a condicionante existiu o não, o que orientou a partida do projeto foi a manutenção do espaço livre e isso manteve a vocação do lugar que era um espaço público, de encontro da elite na época dos barões do café, mas que com o tempo foi virando um espaço democrático, de manifestação, que a arquitetura proporcionou”, completa.
O que previa o projeto?
Lina apresentou diversos projetos, mas o final previa um museu flutuante, elevado com uma caixa suspensa de vidro e concreto, separado pelo vão para dar vista para o Centro da cidade, e níveis abaixo que – sendo visto da Avenida Paulista – ficam subterrâneo.
A região onde fica o Masp, está a 860 metros de altitude. Um outro fator é que o território brasileiro não corre risco de abalos sísmicos significativos, ou seja, o Masp precisa de condições para ficar equilibrado.
O terreno do Masp também tem uma topografia irregular, apresentando um desnível entre a Avenida Paulista e a Rua Carlos Comenale.
Museu de Arte de São Paulo foi construído na década de 1950
Acervo/Masp
Outras curiosidades
Segundo Benoit, a primeira sede do Masp no Centro era alugada. O Museu ocupava um andar na Rua 7 de abril, no mesmo prédio, o MAM (que era rival do Masp) também ocupava um andar. O Bardi, que era responsável pelo acervo do Masp, aumentava o acervo com dinheiro disponibilizado por Chateaubriand, aproveitando a fragilidade econômica da Europa na época, pós Segunda Guerra.
“Como eles competiam com o MAM – que fazia as bienais – existia uma disputa de buscar um lugar que conseguisse abrigar um acervo tão prestigioso. Na época, a Paulista era um símbolo econômico e fazer o museu ali, igualava o Masp ao Moma”.
Os cavaletes de vidro, utilizados para expor obras, foram concebidos por Lina Bo Bardi para dar características de modernidade ao museu. “O museu sempre teve uma ideia de ser vivo, como algo que se integre com a cultura da cidade, que debate ela. Mesmo que Bardi formasse um acervo de uma história da arte do ocidente, por mais que ele tivesse ideia de formar um museu histórico, tinha que ser de um ponto de vista moderno”.
“O cavalete materializa isso, você tem transparência, sempre tem um quadro interferindo no outro, quase como se fosse um Google Images, já que você passeia por ele. Isso foi uma percepção muito radical da Lina”.
Quando o Masp passou por uma crise econômica, nos anos 90, a administração tentou transformar o museu em algo mais tradicional e retirou os cavaletes de vidro. “Eles apelaram para blockbuster, transformaram o museu com suvenires e trouxeram umas exposições já prontas de fora e o acervo foi colocado em segundo plano”.
Os cavaletes foram recuperados em 2015.
“Ficava um museu de segunda linha, deram um ar de precariedade, a grande coisa foi recuperar mesmo o projeto da Lina. A exposição da Tarsila do Amaral foi um exemplo disso, onde eles valorizam o acervo e criam um eixo de exposições que se relacionam com esse acervo. A Tarsila foi um fenômeno, uma aposta acertada. Uma artista brasileira, mulher, que coloca em relevância outras obras que estavam relacionada. Não reedita a coisa das exposições do período mais decadente do Masp, com exposição franquiada, sem curadoria para vender caneca”.
Saiba por que o Masp é marco da arquitetura moderna
Algumas informações obtidas nesse texto sobre a estrutura do Masp, são do livro “Masp: Estrutura, proporção e forma”, da arquiteta equatoriana Alexandra Silva Cárdenas, vinculada à faculdade de arquitetura Escola da Cidade. O livro foi fomentado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo da cidade de São Paulo (CAU/SP).
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