
Nos espaços de cada uma das dez escolas de samba da Grande Florianópolis, o trabalho começa cedo e vai até tarde da noite, e em muitos dias, segue madrugada adentro. Tudo isso para montar as fantasias que irão vestir os integrantes das agremiações.

O processo de criação envolve meses de pesquisa e trabalho manual intenso – Foto: Germano Rorato
Cada movimento das mãos é cuidadosamente calculado, e cada detalhe pensado para dar vida ao desfile no Complexo Nego Quirido, marcado para ocorrer nos dias 28 deste mês e 1° de março.
As fantasias são peças fundamentais para contar a história de cada enredo, e desempenham um papel crucial no julgamento das escolas. É ela um dos nove quesitos que podem definir o campeão do Carnaval.
O acabamento, a criatividade, a adequação ao enredo, os materiais usados e a harmonia visual entre as roupas, alegorias e o conjunto da escola, são avaliados pela comissão julgadora durante o desfile. Por isso, cada elemento, desde os tecidos passando pelas cores e adereços até chegar ao brilho, precisa ser escolhido com precisão.
Os trajes não precisam ser só criativos, têm de ser funcionais, leves, e permitir aos componentes desfilar com conforto e fluidez.
Pesquisa
A confecção das fantasias é um processo que envolve pesquisa, criação e a busca por materiais que, muitas vezes, são acessíveis, mas que precisam se transformar em peças que impressionem os jurados e encantem o público.
O trabalho começa com a pesquisa do tema e a criação de croquis, que vão se transformando em protótipos, ajustados e aperfeiçoados conforme as necessidades do enredo.
Em cada escola, as fantasias são divididas em três grupos principais: as de ala, que representam o grande público das escolas, uniformizando os componentes dentro de cada segmento; as de composição, que têm um visual mais sofisticado e ajudam a construir as alegorias e cenários do desfile; e as de destaque, aquelas que, muitas vezes, sobem nas alegorias ou ocupam os pontos mais visíveis da avenida.
Cores das fantasias têm significado simbólico
O enredo da escola de samba Dascuia para o Carnaval de 2025 promete um desfile emocionante, focando na história da princesa africana Zacimba Gaba, que irá explorar a realeza africana do período de 1780, suas conexões com o mar e a madeira, e a relação de resistência da cultura africana com a escravidão no Brasil.
O carnavalesco Tadeu Stangherlin, que trabalhou juntamente com o carnavalesco Guilherme Estevão, detalhou o processo criativo para tornar o tema em fantasias.

O carnavalesco Tadeu Stangherlin, da Dascuia, mostra os croquis e as fantasias já prontas para o desfile – Foto: Germano Rorato
“A primeira parte vai falar de uma África luxuosa. Depois, vamos para a escravidão, e, por fim, no quilombo, a fantasia ganha uma nova configuração, com cores mais fortes e uma estética de resistência”, explicou Stangherlin.
A proposta, segundo ele, é criar um desfile que transite entre a África de luxo, a luta durante a escravidão no Brasil e a força dos quilombos, com fantasias que passem por todas essas fases da história. As cores das fantasias também têm um significado simbólico.
“A paleta de cores vai envolver verde, rosa e ouro, as cores da escola, mas também o vermelho e preto, novidades para nós. São as cores da resistência, da luta, do sofrimento. Tem também a cor laranja, que não costuma ser tão presente. O verde e o rosa vão ganhando tons de cores amigos para ajudar a contar a história.”
Ele também falou sobre o uso de materiais simples, como capim-barba-de-bode e palha. “A gente identificou que tanto na realeza africana quanto aqui no Brasil, o negro tinha acesso a materiais simples como palha, capim, as coisas cruas, porque era uma vivência de campo e depois de mata.
Queremos mostrar a África luxuosa, mas também a resistência de um povo que resistiu”, afirmou. O processo de criação das fantasias, que leva de três a quatro meses, envolve um intenso trabalho manual. O carnavalesco enfatizou a importância de cada detalhe.
“O Carnaval é feito por muitas mãos. Além da minha, há muitas pessoas envolvidas. Cada fantasia tem um setor específico, e o acabamento é essencial. Quando o jurado olha, é muito importante que ele consiga identificar o que estamos tentando passar. O acabamento e o detalhe são fundamentais para isso”, avalia.
Tema influencia em cada etapa da criação
Na Unidos da Coloninha, o processo criativo para as fantasias do Carnaval começa bem cedo, logo após o fim da folia do ano anterior. O carnavalesco André Luiz da Cunha compartilhou detalhes do trabalho árduo que envolve a criação e montagem das fantasias, revelando como o tema do ano influencia cada etapa do processo.
“Assim que o Carnaval acaba, já começamos a pensar no próximo. A definição do tema é o primeiro passo, e este ano decidimos falar sobre o ‘Benzimento: O poder das 7 ervas sagradas’”, explicou Cunha.
A pesquisa sobre ervas e elementos que podem ser “carnavalizados” é uma das etapas iniciais. “A partir disso, começamos a desenvolver as alas, sentando com os desenhistas para criar os croquis e protótipos das fantasias. Tudo é pensado para garantir que a fantasia represente bem o enredo e seja visualmente impactante”, contou.

Processo de criação das fantasias e adereços da Unidos da Coloninha envolve também pessoas da comunidade – Foto: Germano Rorato
Quanto aos materiais, Cunha explicou que muitas compras são feitas em São Paulo, onde é possível encontrar opções mais econômicas. “Placas, adornos e outros elementos são comprados lá, e conseguimos fazer tudo dentro do orçamento, com um visual bonito, que é o que importa para a escola”, finalizou.
O carnavalesco também destacou a importância de buscar materiais alternativos e acessíveis, uma vez que o orçamento da escola exige criatividade.
“A gente precisa fazer muito trabalho de pesquisa para conseguir material barato, mas que mantenha a qualidade estética das fantasias. O processo envolve não apenas as pessoas da escola, mas também a comunidade, que vem ajudar na confecção das peças”, disse.
Atualmente, cerca de 20 pessoas trabalham diretamente na produção das fantasias, além do apoio de moradores da comunidade. Segundo Cunha, a rotina de trabalho é intensa, especialmente na reta final. “Começamos às 8h e, conforme o Carnaval se aproxima, os turnos vão ficando mais longos. Chegamos a virar a noite para garantir que tudo esteja pronto a tempo”, revelou.

O acabamento impecável pode ser decisivo na hora do julgamento – Foto: Germano Rorato
Além do esforço das mãos que confeccionam as fantasias, a alimentação e o apoio logístico são essenciais para manter todos com energia durante o período intenso de trabalho.
Materiais recicláveis e uso inteligente dos recursos
Zeca Swinguinho, carnavalesco da Império Vermelho e Branco, compartilhou detalhes do processo criativo e do trabalho coletivo envolvido na produção das fantasias para o Carnaval de 2025.
“Aqui, todo o trabalho começa com os projetos de desenho. Depois, fazemos a compra de materiais e a execução. É um trabalho muito manual, com muitas mãos envolvidas. São cerca de 20 pessoas trabalhando diretamente na confecção das fantasias, mas o processo todo envolve muitas mais”, explicou.
O carnavalesco destaca a importância do acabamento das fantasias, que precisa ser cuidadoso para agradar os jurados e transmitir, no palco da avenida, o conceito da escola. “Cada detalhe da fantasia precisa ser pensado, e a visão coletiva é essencial”, enfatiza.

Na Império Vermelho e Branco,cerca de 20 pessoas trabalham na confecção das fantasias
Ele também falou sobre o cuidado necessário para garantir que cada fantasia represente corretamente o tema proposto. Neste ano, o enredo da Império Vermelho e Branco será dedicado a Oxóssi, o orixá da caça, da fartura e das florestas.
“Oxóssi protegia os escravos quando vinham dos navios negreiros. Sua história é muito rica e precisa ser contada de forma didática nas fantasias, para que o público entenda a simbologia por trás de cada elemento”, contou.
Segundo Swinguinho, o processo criativo para cada fantasia leva meses. Isso inclui pesquisa, escolha dos elementos e a montagem das frentes de trabalho. “A ideia é fazer algo complexo, mas compreensível, para que as pessoas entendam a história que estamos contando. Oxóssi tem uma ligação com elementos da natureza, e sua imagem será explorada nas fantasias de forma clara e impactante”, explicou.
A escola também investe em materiais de reciclagem e no uso inteligente de recursos para compor as fantasias. Alguns materiais são comprados de fornecedores de São Paulo, mas a maioria dos detalhes é feita diretamente na oficina da escola, com muita pesquisa e criatividade para manter os custos baixos sem perder a qualidade.
“Eu trabalho muito com a reciclagem dos materiais, então a grande maioria dos materiais que trabalhamos é feito no nosso espaço, tudo para fazer uma coisa de efeito, mas ao mesmo tempo barato”, concluiu o carnavalesco.