
Em um gesto tão simbólico quanto estratégico, Donald Trump instituiu o 2 de abril como o “Dia da Libertação Nacional”, buscando inaugurar uma nova era para a indústria norte-americana. Por trás da retórica nacionalista, há um movimento claro: restaurar a capacidade produtiva dos Estados Unidos e reequilibrar sua posição no comércio internacional. O instrumento? A aplicação do princípio da reciprocidade — exigindo que os países confiram aos produtos americanos o mesmo tratamento dado às suas exportações aos EUA.
A medida visa corrigir distorções, como estruturas tributárias que penalizam importações — realidade presente, por exemplo, no Brasil. Contudo, Trump mira mais alto: sua proposta é reindustrializar o país, trazer fábricas de volta e fortalecer a base trabalhadora que passou a ser o coração político de sua coalizão. Sua estratégia combina incentivos regulatórios com ameaças tarifárias — a “cenoura e o chicote” — e pode provocar, em contrapartida, retaliações comerciais de escala global.
O que Trump não menciona, porém, é o quanto essa ordem internacional, agora contestada, beneficiou os Estados Unidos por décadas. Foi sob esse arranjo que Washington impôs milhares de sanções, instrumentalizou o dólar como ferramenta de coerção financeira, controlou o acesso ao petróleo e interveio mundo afora em nome da democracia — nem sempre de forma desinteressada.
Nos próximos dias, muito se comentará sobre o alcance e o impacto dessas medidas. Trump poderá entrar para a história como o líder ousado que reverteu o declínio americano com apostas arriscadas: tarifas protecionistas, exploração intensiva do petróleo e a contenção da China. Ou será lembrado como aquele que martelou o prego final no caixão da hegemonia dos Estados Unidos — entregando, de bandeja, à China as rédeas da governança global no século XXI.
Ainda é cedo para decretar o fim de qualquer era. Mas é possível traçar um paralelo: a crise financeira de 2007 desorganizou os fundamentos da ordem econômica; a COVID-19 expôs a fragilidade da ordem política; e o “Dia da Libertação Nacional” pode representar o ponto de inflexão no sistema do comércio mundial.
Neste cenário, consolida-se o alvorecer do século asiático, com a China assumindo a dianteira tecnológica, produtiva e monetária. A hegemonia americana, construída sobre valores, poder militar, supremacia do dólar e domínio da inovação, começa a ceder espaço. A história não terminou — mas o eixo do mundo, sem dúvida, começou a se deslocar.
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