
Jorge Jesus, Abel Ferreira e Artur Jorge são os maiores exemplos de sucesso da “febre” dos treinadores portugueses no futebol brasileiro. Desde 2021, por exemplo, um treinador brasileiro não conquista o Campeonato Brasileiro, quando Cuca foi campeão com o Atlético-MG.

Treinador viveu experiência no Botafogo-SP em 2024 – Foto: Arquivo Pessoal/Paulo Gomes/ND
A procura por treinadores europeus “furou a bolha”, inclusive, de divisões abaixo do futebol nacional. Filipe Gouveia, por exemplo, chegou ao Brasil no início de 2025 para comandar o Brusque na disputa do Campeonato Catarinense e da Série C.
Em 2024, Paulo Gomes comandou o Botafogo-SP no Campeonato Paulista e na Série B. O treinador, inclusive, conversou com a reportagem ND Mais em entrevista exclusiva para explicar o que “atrai” treinadores portugueses a procurarem também “mercados emergentes” no futebol brasileiro.
Na opinião do treinador, existe pouca valorização do próprio produto no Brasil, além disso, tratou o jogador brasileiro como o “mais talentoso” do planeta e negou, o que chamou de falácias, sobre o atleta brasileiro ser “menos disciplinado taticamente”.
Leia a entrevista com Paulo Gomes na íntegra:
ND: O que o atraiu no futebol brasileiro?
Paulo Gomes: “O jogador brasileiro, para mim, continua a ser o melhor do mundo, tem muita qualidade, não só técnica mas também tática. Confirmei isso ao poder treiná-los. Ouvia dizer que no Brasil era tudo muito difícil pelo tamanho do país, a gente só viaja, não treina e eu achava aquilo um pouco de desculpas ou exagero, achava que era possível fazer diferente e quis por isso a prova. Surgiu a oportunidade no Botafogo e as coisas correram bastante bem”.
Quais jogos mais te marcaram nessa etapa?
“Posso te falar dos três jogos contra o Palmeiras, onde lutamos até o último minuto pela vitória. Isso já diz muito. Os três jogos contra o Santos, campeão da Série B e finalista do Paulistão, lutamos até o último minuto pelo resultado. Acho que são seis jogos contra duas grandes equipes do futebol brasileiro. Você conseguir competir com jogadores desse nível fica bem evidente que a qualidade e a competência está lá.

Técnico elogiou a qualidade do futebol brasileiro – Foto: Arquivo Pessoal/Paulo Gomes/ND
O que tem atraído os treinadores portugueses para ligas “emergentes” no Brasil?
“Acho que às vezes o brasileiro menospreza um pouco o próprio futebol. O futebol brasileiro é muito grande. Quando um técnico português que já foi campeão nacional como o Gouveia (Brusque) vai treinar uma Série C do Brasileiro é porque realmente vocês são muito grandes. O futebol brasileiro paga salários bastante elevados, portanto, tem clubes muito profissionalizados, o Botafogo-SP é um deles. O clube não atrasou salários e premiações um dia sequer. Estou falando de um clube que hoje é de Série B. Comparativamente com alguns clubes da Europa e da Ásia, as condições são boas. Eu, particularmente gostaria de voltar ao Brasil, você treina jogadores de qualidade e tem uma competição de nível alto”.
O jogador brasileiro é “menos aplicado” taticamente?
“Não concordo em nada com isso. O jogador é muito inteligente e hoje tem várias ferramentas que lhe permitem perceber se o treinador é bom ou não. Quando o jogador vê que o trabalho é bom, ele começa a olhar para ele próprio e diz assim “eu tenho que dar o meu melhor com esse cara, porque ele está fazendo as coisas corretamente”. No meu caso, os jogadores confiaram no nosso trabalho e tentaram implementar em campo as ideias que passamos, sempre focados nas ideias coletivas da equipe, na ocupação racional dos espaços, nas coberturas ofensivas e defensivas. São princípios que você passa aos jogadores e depois vê no jogo se eles fazem ou não”.
Quem deve ser o novo treinador da seleção brasileira?
“As pessoas hoje focam mais no pessoal e menos na competência e qualidade. Não importa se o novo treinador da Seleção será estrangeiro. Quantos treinadores bons já tivemos na história do futebol? Agora se fala muito da nacionalidade, dos portugueses serem melhores. Há treinadores portugueses competentes e com qualidade, mas não são todos. Assim como há treinadores brasileiros com qualidade. Se pegarmos alguns exemplos: Alex Ferguson, um dos melhores da história, é escocês. Simeone é argentino, Guardiola é espanhol, Luxemburgo é brasileiro. O importante é a competência, não a nacionalidade. Meu desejo é que seja um treinador que faça o Brasil ser organizado e competitivo em campo”.

Dorival Júnior foi demitido da seleção brasilira – Foto: Rafael Ribeiro/CBF/ND
O que você enxerga como o maior problema do futebol brasileiro?
“O problema do Brasil não está em sua seleção. O problema do Brasil vem abaixo. Você é filho de alguém e toda a sua formação passa pelo seu pai ou responsável. O jogador de futebol é a mesma coisa. O problema do futebol brasileiro, na minha perspectiva, vem da base. Como você não profissionaliza todas as comissões técnicas das categorias de base? Isso é grave. Aí você vai jogar contra a Geórgia, por exemplo, em um Mundial e vai ter dificuldades. Vão se perguntar o porquê. A resposta está na base deles, na forma como é organizado”.