
Eyad Baba
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou, nesta quarta-feira (2), que as forças armadas estão “fragmentando” Gaza e ocupando áreas para pressionar o Hamas a libertar os reféns mantidos em cativeiro no território palestino.
Após quase dois meses de trégua e com as negociações para estendê-la estagnadas, Israel retomou, em 18 de março, sua ofensiva aérea, e dias depois, a terrestre, contra o Hamas.
Nesta quarta, ataques israelenses mataram pelo menos 34 pessoas em Gaza, informou a Defesa Civil do território palestino.
O exército está “fragmentando a Faixa de Gaza e aumentando a pressão pouco a pouco para que nos devolvem os reféns”, declarou Netanyahu, acrescentando que Israel “toma territórios, atinge terroristas e destrói infraestruturas”.
O líder israelense também informou que as forças armadas estão “tomando o controle do ‘Eixo Morag'”, uma faixa destinada a separar as cidades de Khan Yunis e Rafah, no sul do território.
O nome do eixo faz referência à antiga colônia judaica de Morag, desmantelada em 2005, quando o exército israelense se retirou unilateralmente de Gaza.
O ministro israelense da Defesa, Israel Katz, tinha dito anteriormente que o exército israelense estava expandindo suas operações para tomar “grandes áreas” do território palestino, com o objetivo de “destruir e desocupar a área de terroristas e infraestrutura terrorista”.
Segundo a Defesa Civil de Gaza, um dos bombardeios israelenses desta quarta-feira matou 19 pessoas, entre elas nove crianças, em uma clínica da Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA, na sigla em inglês) em Jabaliya, no norte do território.
O exército declarou que tinha atacado milicianos do Hamas “dentro de um centro de comando e controle” em Jabaliya e confirmou em separado à AFP que o edifício abrigava uma clínica das Nações Unidas.
O Ministério das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, com sede na Cisjordânia ocupada, condenou o “massacre” e pediu que haja “pressão internacional séria” para deter a ofensiva israelense.
Outras 13 pessoas morreram em ações israelenses contra residências na cidade de Khan Yunis, no sul, e outras duas no campo de refugiados de Nuseirat (centro), segundo a Defesa Civil.
Ao menos 1.066 pessoas morreram em Gaza desde que a ofensiva israelense foi retomada, segundo o Ministério da Saúde do território, governado pelo Hamas.
– “Libertar os reféns” –
O Fórum das Famílias, a maior associação de familiares dos reféns sob poder do Hamas, se declarou “horrorizado” com o anúncio do ministro Katz.
“Ao invés de libertar os reféns com um acordo e pôr fim à guerra, o governo israelense envia mais soldados para Gaza para combater nas mesmas áreas onde lutaram mais de uma vez”, assinalou.
Os países mediadores de ambas as partes – Catar, Egito e Estados Unidos – trabalham em um novo acordo de cessar-fogo que permita o retorno do restante dos reféns do Hamas.
Um alto dirigente do movimento islamista disse, no sábado, que o grupo havia aprovado uma nova proposta de trégua apresentada pelos mediadores e instou Israel a fazer o mesmo.
O gabinete de Netanyahu confirmou ter recebido a proposta dos mediadores e informou ter apresentado uma contraproposta.
Os detalhes destas últimas manobras de mediação não foram revelados.
Neste contexto de forte tensão, o ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, de extrema direita, provocou nova polêmica nesta quarta-feira, ao visitar a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, o terceiro lugar mais sagrado do islã.
A visita suscitou a condenação não apenas do Hamas, mas também da vizinha Jordânia, que atua como guardiã do local sagrado, além do Catar e outros governos.
– Padarias fechadas –
No domingo, Netanyahu ofereceu aos líderes do Hamas a possibilidade de deixar Gaza, sob a condição de que o grupo entregue as armas.
O movimento islamista declarou que poderia abrir mão de administrar Gaza após o conflito, mas se nega a depor as armas.
A guerra foi provocada pelos ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, contra Israel, que deixaram 1.218 mortos, segundo um balanço baseado em dados israelenses.
A campanha de represália de Israel matou pelo menos 50.423 pessoas em Gaza, civis em sua maioria, de acordo com o Ministério da Saúde do território.
Para aumentar a pressão sobre o movimento islamista, Israel também bloqueia, desde 2 de março, a entrada de ajuda humanitária na já sitiada Gaza.
Algumas padarias fecharam pela falta de açúcar e farinha. “Passei toda a manhã indo de padaria em padaria, mas estão todas fechadas”, disse à AFP Amina al Sayed na Cidade de Gaza.