
A inflação americana, turbinada pelo segundo choque do petróleo, deflagrou uma crise sem precedentes na economia brasileira no passado. O presidente do Federal Reserve, Paul Volker, assumiu o cargo em agosto de 1979, com os juros americanos estabelecidos em 10,94% ao ano. Para combater a alta de preços, pisou no acelerador. Em outubro de 1980, as taxas anuais chegaram a 20%. Com esse salto, a dívida externa dos países em desenvolvimento ficou impagável – e, entre eles, a do Brasil se destacava.
Houve rodadas de negociação entre os bancos estrangeiros e o trio de responsáveis pela economia brasileira: Os ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas, além do presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore. Ocorre que nenhum destes economistas era bom negociador – e as conversas nunca foram benéficas para o Brasil. O acúmulo de insucessos teve seu ápice em fevereiro de 1987, após o regime militar, quando o país decretou moratória dos débitos tomados junto à banca internacional.
Esse capítulo foi superado com um novo acordo, mas os bancos só conseguiram se entender com o governo brasileiro quando entrou em campo o diplomata Jório Dauster, durante o governo de Fernando Collor de Mello, para conversar com os banqueiros. Dauster, um negociador experiente, percebeu a hora de ser duro e a hora de contemporizar. Conseguiu elevar o nível das negociações e e criou condições que foram razoáveis para os dois lados.
Mais de trinta anos depois, o Brasil se vê diante de uma nova crise, também iniciada por questões internas dos Estados Unidos. No dia de hoje, o presidente Donald Trump irá anunciar um tarifaço sem precedentes para a importação de produtos brasileiros. E, como se trata de Trump, nada está escrito na pedra. Esse é o primeiro passo para que tenhamos uma rodada de negociações difíceis.
O problema é que, hoje, não temos uma ponte entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. Pelo contrário. O que existe é uma animosidade recíproca entre os líderes dos países, que pode tornar as conversas mais complicadas – embora o corpo diplomático e a burocracia de ambas as nações estejam comprometidas em um diálogo civilizado. O problema, aqui, é o comportamento dos dos mandatários, que pode colocar o tom moderado dos negociadores na lata do lixo.
Precisamos, com urgência, localizar alguém que possa ser uma espécie de tradutor simultâneo entre o petismo e o trumpismo. Alguém que consiga captar o que Trump quer de fato e até onde o Brasil poderá ceder. Por enquanto, temos apenas um grupo de pessoas de boa vontade conversando com um time de representantes americanos.
Com Donald Trump, porém, negociações oficiais não valem muito. O que importa para o presidente americano é a conversa direta, o olho no olho. E, para entrar em um processo de conciliação como este, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai precisar de um conselheiro de peso, que possa até substituí-lo eventualmente em um tête-à-tête com Trump.
Infelizmente, pessoas com o perfil de um Jorio Dauster ou mesmo do empresário Mario Garnero já estão afastadas da ribalta. Mas precisamos urgentemente encontrar alguém com as características destes dois personagens: inteligência, habilidade, repertório e grande capacidade de interpretação de sinais sutis.
Sem alguém para entender quais são de fato as intenções de Trump com o tarifaço e possuir portas abertas na Casa Branca, o Brasil pode perder muito tempo em conversas que irão do nada ao lugar nenhum. E nosso país, a essa altura do campeonato, não pode se dar ao luxo de perder mais tempo.
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O post Opinião: “a partir de hoje, o Brasil vai ter de reaprender a negociar” apareceu primeiro em BM&C NEWS.