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Acompanhamos a política econômica dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump continuamente no centro das discussões globais. Com uma estratégia que mistura tarifas comerciais punitivas e o incentivo ao uso de stablecoins –moedas digitais privadas lastreadas em dólares–, os EUA buscam fortalecer sua posição econômica enquanto pressionam outras nações a financiarem sua crescente dívida.
Os Estados Unidos enfrentam um déficit público alarmante, que exige a captação de quase dois trilhões de dólares em novos títulos do Tesouro somente em 2024. Paralelamente, Trump aposta em cortes agressivos de impostos para empresas, reduzindo a alíquota de 35% para 21% – e possivelmente para 15% em 2026. Essa política pode agravar ainda mais o desequilíbrio fiscal do país.
Alguns números de referência, são: o PIB mundial em 2024 é de aproximadamente 104 trilhões de dólares, enquanto o PIB americano representa cerca de 29 trilhões de dólares, equivalente a 30% da economia global. E a dívida americana já ultrapassa 120% do PIB, chegando a 40 trilhões de dólares. O déficit anual cresce em 2 trilhões de dólares, equivalente a 1,8% do PIB mundial.
Para enfrentar esse cenário, o governo Trump se apoia em três pilares: emitir novos títulos do Tesouro, podendo levantar até 5 trilhões de dólares na próxima década; desvalorizar o dólar, tornando os produtos americanos mais competitivos no mercado internacional; e manter os juros baixos, garantindo que o dólar continue sendo a principal moeda de reserva global.
No entanto, esses objetivos são contraditórios a meu ver. Para atrair investidores, os EUA precisam oferecer juros mais altos, o que encarece sua própria dívida. Se Trump continuar reduzindo impostos sem cortar gastos, o endividamento pode se tornar insustentável.
Para garantir a compra de sua dívida, Trump tem pressionado outros países, especialmente a União Europeia. A mensagem é clara: os governos estrangeiros devem adquirir mais títulos americanos ou enfrentarão tarifas comerciais e restrições ao acesso ao mercado dos EUA. Essa abordagem agressiva pode gerar tensões diplomáticas e colocar em risco relações comerciais importantes. A União Europeia, que já enfrenta desafios econômicos internos, pode ser forçada a reagir com medidas protecionistas ou buscar alternativas para reduzir sua dependência do dólar.
Outro elemento-chave da estratégia de Trump é o incentivo aos stablecoins americanos, que podem se tornar uma alternativa ao euro dentro da Europa. Stablecoins são moedas digitais lastreadas em dólares e ligadas a títulos do Tesouro dos EUA. Empresas como Tether e Circle já movimentam centenas de bilhões de dólares nesse mercado e podem expandir sua influência no continente europeu. Um decreto presidencial assinado por Trump impulsiona o uso global dos stablecoins, garantindo uma nova fonte de financiamento para a dívida americana.
Se essas moedas digitais forem amplamente adotadas na Europa, parte significativa do capital que circula na região poderá acabar financiando a economia dos EUA e enfraquecendo o euro.
A grande dúvida é se essa estratégia de Trump terá sucesso ou se poderá acelerar um declínio econômico dos EUA. Caso falhe, os impactos podem ser severos: o dólar pode perder valor rapidamente, os juros podem disparar, elevando o custo da dívida americana, e uma crise financeira global pode ser desencadeada.
Caso a pressão sobre os países estrangeiros não surta efeito, o Federal Reserve poderá ser forçado a comprar a própria dívida americana, gerando um efeito dominó imprevisível na economia mundial. O futuro da economia global dependerá da resposta dos outros países à estratégia agressiva dos EUA. A União Europeia e outras nações precisarão decidir se aceitarão financiar a dívida americana ou se buscarão alternativas para preservar suas próprias economias.
De qualquer forma, a disputa geopolítica entre os EUA e o resto do mundo está cada vez mais intensa, e os próximos capítulos dessa história determinarão o rumo da economia global nos próximos anos.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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